sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

DE DIREITO


Oficializado
ainda que absurdo,
o ciúme foi declarado,
assumido, respeitado...
 
Regularizado,
ainda que abusivo, 
foi considerado, ponderado,
compreendido, perdoado...
 
Justificado,
ainda que injustificável.
Sem mal-estar.
 
Legalizado, 
ainda que vergonhoso.
Sem pudor.
 
Aceito e relevado,
ainda que inaceitável.
Sem intervenção.
 
Resultado?
Uma a menos...

Alcíone Pimentel 

CENSURA



Não os culpo.

Na nossa sociedade,
a clandestinidade
é mesmo o único destino
da verdade.

Alcíone Pimentel 

CORPO-ESPELHO



A maciez da voz

do toque

do beijo

do roçar

das palavras

é a da alma.


O calor da voz

do toque

do beijo

do roçar

das palavras

é o do coração.


Alcíone Pimentel 



CONCRETIZAÇÃO


...Nessa ausência de mim,
a intensa presença de você...

Alcíone Pimentel

ABDICAÇÃO


Você
que sabe apreciar o poder,
por que se recusa a reinar?

Por que não aceita ser deus,
quando tem nas mãos
o destino,
sorrir ou chorar,
viver ou murchar,
de uma vida?

Nada é por acaso.
Ninguém pode assumir seu papel,
nem fazer a sua colheita!

Alcíone Pimentel

“O medo de amar
é não arriscar,
esperando que façam por nós
o que é o nosso dever;
recusar o poder.
O medo de amar
é o medo de ser livre.”
(Beto Guedes e Fernando Brant)

CUMPLICIDADE


Quem ama de fato
está no mesmo barco;

nunca haverá culpa(do)
se algo der errado.

Alcíone Pimentel 

CONJUNÇÃO


Vem assim
caber inteiro
enfim...

Que a sede
por todos os poros
não pode esperar...

Que o fogo
úmido
não vai te queimar...

Que a água
salgada
não vai me afogar...

Que o centro
precisa do eixo
para equilibrar...

E o céu
continua esperando
o mel...

Vem assim
no começo,
no meio...

Quem sabe
um dia,
no fim...

Alcíone Pimentel 

VISÃO


Olhos do pai.
Cachos da mãe.
Corre nos campos.
Brinca nos mares.

Joga beijinhos das nuvens.
Me sorri das estrelas.

Faz "tchauzinho" 
de um tempo distante,
que não sei se já foi 
ou ainda virá...

Seu sorriso compreensivo,
quase condescendente,
diz para eu ter calma,
que tudo tem seu tempo.

Obrigada, menino-anjo,
por vir da eternidade 
para me consolar.

Carrega-me hoje 
em teus braços,
que um dia em meu seio 
vou te aconchegar...

Alcíone Pimentel 

CANÇÃO DE NINAR


Vovô-menino...

Cabelos quase grisalhos,
rosto de anjo,
sorriso criança,
olhos de homem,
expressão adolescente...

Vovô moleque...

Rola comigo no chão...
Faz das palavras
brinquedos para mim...

Quando eu crescer,
quero a candura do seu rosto,
a doçura do seu sorriso,
a força dos seus olhos,
a malícia da sua expressão...

Quando eu nascer,
quero sentar no seu colo
e ouvir suas histórias...

E depois,
quero deitar sua cabeça
no meu colo
e te fazer adormecer,

com meus dedinhos
entre os seus cabelos,
cantando uma canção infantil.

Alcíone Pimentel 

DESPERTAMENTO (um conto em versos)

Por acaso, olhei para o céu.
E, admirada, vi estrelas.
E de repente me dei conta:


Há quanto tempo

eu não via estrelas!
Aliás, há quanto tempo

eu não olhava pro céu?

Minha filha de oito anos

me chamou a atenção:


— Mãe, eu te disse

“Como o céu está lindo,

cheio de estrelas!”...
Mas você não ouviu...

E de repente me dei conta

que o meu filho de sete anos,
moleque de cidade,

saudavelmente arteiro,


— escalador de muros, lajes, grades
e tudo o que mais perigoso encontrar
na sua infância urbana —
NUNCA havia subido em uma árvore...

E ao ouvir uma vozinha perguntando
— Mãe, o que é isso? —
de repente, chocada, me dei conta

que, nos seus quatro aninhos de vida,
a minha caçula NUNCA

tinha visto uma vaca!

E de repente me dei conta

de como a gente,

nessa vida, se acostuma...

 

a andar sempre

olhando para o chão,
com medo de tropeçar,

e para a frente,
com medo de perder o rumo...

E isso me lembra

O Pequeno Príncipe...

 

Quem olha somente prá frente
não pode mesmo chegar

a nenhum lugar...


Alcíone Pimentel 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Tempo tempo tempo tempo...


A chegada de um novo ano me fez refletir sobre o tempo...


Houve um tempo em que desejei que a nossa família fosse normal... Não no sentido convencional, mas no de sermos todos próximo, convivermos mais... Só mais tarde eu descobri que de perto nenhuma família é normal. E que somos todos crianças no Jardim da Infância, assustadas e querendo colo.


Houve um tempo em que eu nos sentia muito sós. Sentia falta dos almoços de domingo, avós, tios, primos, padrinhos...


Ainda bem que guardo algumas preciosas e deliciosas lembranças de momentos da nossa infância em que tivemos isso... Das brincadeiras com a Shirley no Rio, de desenhar o sol no chão pra parar de chover, das latinhas com água na porta da geladeira que me impressionavam, do ciúme da Giane quando ela vinha me visitar ... Com a Ana Paula em Bom Conselho, da porta cortada no meio com a parte de cima sempre aberta, das pulseiras da feira que colecionávamos, do barco Vicking, da praça... Da prima mais velha Elaine, a quem eu não dava sossego, pedindo "vamo brincá de pambelinha"... De como eu as achava lindas e me sentia o patinho feio... De como a casa da tia Juliene era o melhor lugar do mundo... Da batata frita especial em rodelas inigualavelmente fininha e crocante da tia Leda... Só ela em todo o Universo tinha aquele cortador... Das férias na tia Zuleica, batata frita, churros, bagunça e alegria... Das visitas à tia Célia, o pânico do elevador...


Houve um tempo em que sonhei com uma grande família... Acho que para realizar essa parte dei minha contribuição a contento, né? E você também... rs


Houve um tempo em que senti sua falta e me perguntei como a minha irmãzinha que eu cuidava tanto e tinha tanto medo de perder no mercado, na praia pôde ter se transformado numa completa estranha e tão distante de mim... Só mais tarde fui saber que esse "vírus" ataca todos os aborrescentes...


Houve um tempo em que desejei que fôssemos amigas, companheiras, confidentes, que compartilhássemos ideias, sentimentos, preocupações e trocássemos experiências, desabafos, conselhos... Enfim, que tivéssemos coisas em comum. Só depois de termos filhos é que isso foi acontecer. O que só vem mostrar que tudo tem seu tempo.


Há tempo pra tudo e sempre é tempo de agradecer. Então OBRIGADA, maninha! Por cuidar do meu bebê mesmo já tendo o seu pra cuidar. Por ser a irmã mais velha quando eu virei criança de novo. Por ficar comigo quando eu estava mais pra lá do que pra cá. Por cuidar de mim. Por não me falhar quando precisei.


Alguém me disse uma vez que a vida é feita de gestos. Pequenos e grandes gestos que marcam a nossa vida, fazem a nossa história. Alguns valem uma vida inteira. E merecem eterna gratidão.


Valeu, mana! Tá valendo! Feliz Ano Novo! Pra começarmos de novo. Com tudo novo de novo...


Que cada ano nos traga um tempo melhor! Que a cada ano o nosso tempo fique melhor!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

SUBLIME TRANSIÇÃO


Tempo de crescer...
 
Menina
Que nunca tenha medo
de re-nascer,
de re-descobrir...
 
E que o mundo se abra para você
em cores,
luzes
e perfumes...
 
Mulher
Que não perca jamais
a ingenuidade,
a esperança,
a fé
da infância...
 
E que a vida seja para você
um eterno poema...
 
Menina-mulher
A curiosidade da menina...
A força da mulher...
 
Que a sorte seja sua sina
e que saiba sempre o que quer.

Alcíone Pimentel