domingo, 6 de novembro de 2011

METAMORFOSE


Posso pintar os lábios,
mas não mudar o gosto
da minha boca.

Posso usar 
lentes de contato,
mas não esconder 
o brilho
dos meus olhos.

Posso vestir negro,
mas não arrancar 
o cor-de-rosa
do meu coração.

Posso mudar 
a cor dos cabelos.
Posso mudar 
meu comportamento.

Só não posso mudar
minha essência.
E muito menos 
o sentimento.

Alcíone Pimentel 


domingo, 2 de outubro de 2011

QUADRO



Pode-se mudar a cor,
a forma,
para agradar
aos olhos de quem vê...

À crítica,
ao público-alvo,
à clientela que se quer atingir,
a quem bem aprouver...

Mas a essência da obra,
essa é intocável.

Alcíone Pimentel 

sábado, 13 de agosto de 2011

Filosofia



Finalmente descobri
a verdade universal:
Se o tempo que eu gasto com a minha rosa
é que faz com que ela seja especial,
então o especial está em mim
e não na rosa, afinal.

domingo, 7 de agosto de 2011

DE GUERRILHEIRO A CONQUISTADOR


O menino cresceu.

Arrogante,
hoje usa gravata.
Persegue o sucesso,
o domínio,
o poder.

Elimina tudo
que possa ameaçar
o intocável mundo perfeito

que construiu ao redor de si
para se proteger.

Agora é ele 
quem determina.

O menino
não o reconheceria.

Alcíone Pimentel 

domingo, 17 de julho de 2011

BATENDO NO OMBRO



Quem és tu
tão ocupado
tão concentrado
aí debruçado
sobre o passado?

Imortal das letras
Crítico exigente
Perfeccionista arquiteto

Divide versos
— ritmo e cadência
Desenha rimas
— raras, ricas, nobres, preciosas

Substitui vocábulos
Separa, junta, inverte
Converte
Subverte
Enriquece
Enobrece
Faz e acontece

Mas não esquece:
Vê se não vai trair o poeta!!!

Alcíone Pimentel 

sábado, 9 de julho de 2011

AO NOBRE COLEGA


Discordo.
Poesia
não tem de ter razão:
só coração.

Pura e simplesmente
coração.

De razão
só o suficiente
para melhor expressar
o que pensa o coração.


sábado, 11 de junho de 2011

DESCLASSIFICAÇÃO



Não me rotule de poeta
somente pra caber.
Apenas não sei
viver sem escrever.
 
Dizem que o poeta
escreve para o mundo.
 
Ainda bem que não sou
poeta simplesmente!
Não preciso me adequar
a nenhuma regra...

 Alcíone Pimentel

domingo, 1 de maio de 2011

DESPOESIA



DESPOESIA

De propósito
não rimo.

A vida
quase nunca
tem rima.

E as palavras,
quase sempre
mal empregadas,
nunca dizem
o que realmente
querem dizer.

Pra que aprender
tanto
da língua que
tanto amo,

se não serve
pra me expressar
mas serve
pra me enganar?

Alcíone Pimentel

quinta-feira, 21 de abril de 2011

SÍNTESE

 
Meu querer é tão louco
que todo ter é pouco.
Até o mais absoluto ter
ainda seria pouco
para esse louco querer
que, de tão louco,
vive do próprio querer.

Alcíone Pimentel 

sábado, 16 de abril de 2011

PLÊIADES




Somos sete estrelas irmãs.

São sete as letras 
do meu nome,
sete os eus 
dentro de mim...

Serão sete
as vezes que te amei?

Alcíone Pimentel 



sábado, 9 de abril de 2011

ADVERTÊNCIA




Ilusão de ótica.

Não se engane.
Não se trata
de você.

Em cada verso,
palavra, letra,
é a mim que se lê,

ainda que refletido
em outrem
qualquer.

Alcíone Pimentel

domingo, 3 de abril de 2011

HISTÓRIA DE CLARA





Pequena e frágil, ela nasceu da neve, mas tinha uma chama interna que a derreteu. Cresceu, virou mulher.
Sua pele, de tão branca, ficou transparente: podia-se ver seu coração pulsando, o sangue correndo nas veias.
Seus olhos tinham uma cor diferente, indefinível, quase transparente, que mudava de tom conforme o sentimento. Possuíam um brilho especial, singular, onde se podia ler seus pensamentos.
Mas continuava crescendo, a pele branca esticando, ia ficando cada vez mais transparente... Sentia-se envergonhada, o coração exposto, o vermelho intenso do sangue pulsando... Sentia-se nua, à mercê do mundo.
Menina-mulher, ainda crescia e cada vez menos aparecia. Até que nada mais dela se via (nem sangue, nem coração), a não ser sua alma, sua aura, uma flama, uma luz sutil, peculiar, que mudava de cor conforme o momento, o pensamento, o sentimento.
Um dia, mulher-menina, olhando-se no espelho, de repente já não se via mais. Nele se refletia a imagem do outro, por trás de si, através dela...
...
Mas o mundo descobriu. E a apontou. E a acusou. De feitiçaria.
E como bruxa o mundo a julgou, condenou, castigou, executou...
Como bruxa foi queimada, condenada, não a morrer, mas a arder eternamente na fogueira.
Acreditavam que o fogo a purificaria, mas não enxergaram, em meio às labaredas, a verdadeira chama da vida.
Ninguém percebeu que não passava de um anjo.